sessão # 0

Estava agendado o momento do arranjo. Tinha qualquer coisa a arranhar de baixo da língua, talvez uma farpa entre os dentes, ou um punhado de areia a cegar os olhos. Seria uma azia nervosa no estomâgo? Tudo isso, nada disso. A aflição de um porco na fila da morte.

A sala de espera era luminosa de uma fidalgia lírica, as mãos, bebericando com a hora, mediam-se nervosas a bisbilhotar entre dedos. Seria canja. Encomendaria uma solução coxa, arquitectada de arestas incandescentes só para intimidar os meandros ensebados de mentiras, quase anafilácticas. Parva.
De inverno na mente, acomodei-me no sofá de veludo de tom escarlate, um sofá com espaço para umas quantas de mim. E quantas seria eu afinal?

A da minha espécie aguardava-me, sem flores ou chocolates, num andamento empático, convidando-me a atravessar aquela parede com as janelas da alma, circundando nas nuances dos meus dados biográficos. Colocado o motivo, decifraria o adorno, discursaria com uma indiferença jovial. Mas debalde, as cartas alteram-se, e sob o estrondo de um torpedo, subtraiu-se-me as palavras, afundando-me numa orfandade humilhantemente desentendida.

Foi a derrocada. Campos e campos incendiados...e eu no escuro rodeada de uma claridade sem sobrenome a ferir-me os olhos.

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