Risco

Se havia de chover, era naquela tarde de Domingo. As ruas da cidade não te esperavam, e aquela cadeira fortuita veio-te mesmo a calhar. Estavas-te a marimbar para a água que tombava numa verticalidade imponderavelmente determinada a afastar a vida urbana.

Abrigaste-te do temporal ali, nesse banco-cadeira abúlico, na tarde amotinada que te trazia à memória muitos outros temporais do passado. Ultimamente deixaste de ter pressa, pressa de quê, pressa para quê, se tudo se harmoniza agora, se agora já é um tempo em que pouco falta para que tudo fique certo. Era como um sonho manso, depois de tudo visto e revisto, de tudo finalmente no seu lugar, despediste-te das palavras, e prometes-te a ti próprio um dicionário renovado, aceitando o onde de quem não se sabe. Sabia-te bem repensar tudo o que ainda estaria para vir, acrescentando pequenos pormenores que te facilitariam a percepção de tudo, se é que tudo pode ser percebido.


E assim pela bruma de um Outono estranho, voltaste as pupilas para o céu e desligaste a máquina, embora com esse gesto corras o risco de te tornares...humano.

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