Declaração

- Dr.ª, o que tem a dizer?

Cresciam-me nervosamente sinais que não faziam sentido, um repertório epidíctico de pedacinhos, recortes, tiras de terras e estradas perdidas, incidentes de uma idade atropelada, intuições translúcidas a condensar o gozo da sapiência...zumbidos, náusea, asco, felicidade.
Qual seria a forma mais digna de responder naquela ocasião filha do azedo? Na verdade, a minha vontade surgia como um lume imperfeito, estro descontrolado, labareda a brindar o ar. Precisava de mais, sem os pólos da consciência, da parte em que somos comum a tudo e a quase nada. Estreita fresta era aquela, onde as palavras não podem curar e eu permanecia de pé. Permanecia de pé e era o bastante.

- Dr.ª? Quer tomar a palavra?

Situação nódoa-celenterada, uma sombra-desorganizada, ascite-glútea, um verdadeiro espectáculo em tons encarquilhados. Há momentos que têm a espessura de uma aresta. Frágeis. Fúteis. Finos. Incertos? Entre momentos ultrapassados e muitas outras coisas, prendi a folha de papel no tampo cru da mesa de sentença, e de dedos perdidos assinei o meu pseudónimo.
Imarcescível, saí da sala sem responder, arvorando um sorriso inesquecível.


Agora estica a tua mão e convida-me para dançar.

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