Escondo-me lá muitas vezes.
Sentada no sofá, de frente para ti, num território que não era meu, ouvia-te. Ou pelo menos fazia por isso, nem que escrevesse por cima dos meus próprios olhos, cegando-os. Tu, agachado de cócoras, numa tentativa sábia, discursavas preso ao meu olhar. Convencido de que assim não verias o sangue de um amor largado no chão. Da boca saíam-te frases. Tenho a certeza. Tu eras bom a explicar coisas, por isso deviam ser frases com sentido e esclarecedoras. Eras um homem que se orgulhava da sua lógica e eu apenas uma mulher, com dois lados, ambos de mistérios. Inatíngivel, portanto. As palavras empurravam-se ao soco pelo ar, musculadas e de sensações íntimas. Mexiam-se como uma doença que me pertence, ao ritmo das tuas pausas serenas, e tomavam de assalto os meus ouvidos. Surdos. Escorregavam para o interior do meu cérebro, mas sem tradução possível. Contavam um qualquer entendimento sem amparo. As frases. Eram uma espécie de cinzas, sem um nome que lhe pudesse dar. As palavras. Nem ruído chegava a sê-lo. A fonética.
Talvez o terror não me deixasse perceber-te e assim protegia-me. Do fundo dos meus orgãos vinham insultos, como pancadas que as minhas mãos escondiam entre os dedos. Discreta e nervosa, numa tentativa de maestrar disfarçadamente os sons da tua fala, repetia para mim própria que a aflição de não te perceber era só porque não tinha espaço para pensar. Já que estava cheia, a sentir. Como um feitiço.
Quando paraste e o chão à volta cessou de rodopiar, ficaste à espera de um sinal de acordo meu, como o tombar de um objecto pesado sobre o metal. Pedi-te desculpa. Estúpida. Sem alternativa escondi-te a minha limitação, enquanto ondas acesas, num longo discurso, rebentavam no lado esquerdo do peito. Acho que me refugiei toda no dedo mínimo do pé.


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