Esgotamento
A praia estava deserta, em descanso. A temperatura da tarde ensaiava um bluff de serviço bem prestado de repouso na areia, ao perigoso sorriso de um bando de nuvens a segurar, de caras, a ameaça de chuva. Eu estava disposta a ficar ali, do tipo: Tudo considerado, pago para ver. Conduzi o corpo até aos degraus de acesso à areia. A casa e o jardim ficaram nas costas, com todas as suas certezas. O mar adiante, a deslizar na retina, com a sua navegabilidade incondicional. Eu queria estar contente, porque haviam razões para isso. Mas também queria libertar-me dos orgãos, porque o meu interior é vil e perverso.
... fiquei ali, a tentar reduzir a tristeza pela metade, tapando com a mão um olho de cada vez, mas o coração estava irremediavelmente amolgado para simplória tarefa. Trovejou. Um trovão seco e prolongado. Em mim e na atmosfera. Arrastei com corpo para dentro da casa, esperando ser surpreendida pelas coisas.
...começou a chover. Primeiro a queda hesitante, depois dominadora. Já não suporto mais a tempestade a perguntar-me: "O que estás aí a fazer?", desfigura-me o remoinhar elíptico das dúvidas líquidas, os verbos que não se movem, o calar do que podia ser dito, ou o dizer do que não pode ainda ser contado...estou esgotada e doem-me as mandíbulas de tanto apertar as palavras.
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