Porque sou escalena
De corpo à entrada do desconhecido, calculei a curva da emoção por desejar passar para o lado de lá e só ter uma colher para vazar o mar. Inteiramente ignorante. Aproximo-me, sem antes nem depois, do meu segredo, sem ninguém para ouvir. Queria respirar mas em nenhum lugar estava a minha parte. No peito silvava um horizonte de coisas por dizer. Com o nó dos dedos martelei na madeira da porta. Encerrada. Imóvel. Grotesca como uma entranha. De olhar surdo insisti no inexplicável e toquei com nova pancada. Nada. Basicamente um silêncio alto e dominante. Uma ligeira claridade escoava apetecível junto ao soalho, a fazer-me a vida negra. Ali fiquei, numa dependência imediata de linguagem sem razão, acostumada a lugares mal situados. Nada mais existia naquele círculo vazio com ares de tragédia ridícula e ainda assim, despenteada e de lábios pintados de vermelho, completamente irresponsáveis, deixei-me ficar até à última estrela se apagar do céu. Até que todos os mistérios se arrumaram em grupos à minha volta, sobrando o pouco ou nada de mim. De coração turvo e pulso impaciente, virei costas e não mais olhei para trás. Por alguma razão fiquei sozinha.

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