Caligrafia selvagem
No país-da-direitura, havia um jeito certo de mexer os pés. Ela sabia. Porém, desordeira, em vez de os fazer avançar para a frente, em linha recta, como lhe tinham ensinado desde a infância, mexia-os desenhando passos na diagonal, tomando o compasso de direcções aleatórias e de natureza curva. Um desarranjo que mexia com a mente das pessoas de pés-andadeiros-alinhados-para-a-frente.
Os governantes receosos das implicações de tal mutação reuniram-se. Demoradamente, em sinal da gravidade da questão díscola. Ao entardecer, decretaram, sem pejo, a amputação dos pés da mulher de variações curvas e eixo torto. Daí lavaram as mãos-coto, anunciando a decisão-remédio. Com a paciencia de quem olha o horizonte, a mulher-condenada, de pés descalços, avançou para a lâmina, sem olhar para trás. No dia seguinte, atordoou o país-da-direitura numa gritaria insossegável, arremessando ao vento palavras flutuantes, alvas e profundas, feitas pelo pulso livre das suas mãos, num outro movimento laminado, cujo corte é fatal.
[Os governantes, como tinham mãos-coto e mexiam-se apenas para a frente, levavam com os golpes, insubordinados e rasantes, das palavras, severas, como as pedras de um Deus. Finaram num lamento frio, com os ventres inchados e os olhos doentes.
As pessoas de pés-andadeiros-alinhados-para-a-frente do país-da-direitura, amanheceram, a fazer amor com a liberdade, voltadas para todos os pontos cardeais.]

Bonito!
ResponderEliminarObrigada F. :)
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