Do chapéu de Rosalina e de outos costumes
Rosalina usava na cabeça um chapéu. Sempre. Tal adereço, persistente, poisado sobre os seus cabelos desalinhados, surtia ares de indiferença às gentes, às quais, não vale a pena explicar uma coisa tão rara. Rosalina conservava esse apontamento sobre a cabeça, como uma oração ignorante, uma promessa antiga, semana após semana, saracoteando a sua espinha fina, nas ruas tortas de sentidos únicos. Ao entardecer, Rosalina descia até à praça, por desfastio ou por engano, agarrando o chapéu com os seus cinco pares de dedos e enterrava-o afincadamente no crânio. As coisas funcionavam assim para Rosalina, quando os seus olhos deixaram de coincidir com as palavras, o chapéu na cabeça segurava-lhe os pensamentos para que não lhe escapassem da memória. Costume de dias. Inteiros. De dias feitos num tempo tão comprido em que se poderia dizer alguém:
-Fico contigo para sempre.

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