Directamente para o teu lado
Hoje parto. Na generosa bagageira do automóvel acomodei duas malas. Uma, de aparência de troféu que sobe livre da terra, cargueja roupa e artigos de cosmética, porque o corpo é vaidoso. Pelo menos o meu. Outra, de ares papalvos toma posse de uns quantos livros, inteiramente portugueses, ali amontoados, ao calhas, para as noites ofegantes e imoderadas. Em bolsa musculada guardei o portátil. Ferramenta de escritura que finge a baba azul da esferográfica, a valer-me nas paragens e nos breves lumes. De resto, seguro uma loucura tão apertada em mim, meio oculta nos gestos e iluminante nos olhos. Nada é o que parece, nem nós mesmos.
Parto. Ao volante do Ford Thunderbird. O motor ruge, como se assobiasse uma música por entre os lábios. Lanço um olhar rápido sobre a cidade, gozando a delícia antecipada de te abraçar de novo. Sem prazo. Acelero lentamente. Então é a hora.
Apanho-te já. A meio da tua rua.

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