Na ardência do mês de julho
Por aquela hora as ruas estavam desertas, e a única irresponsabilidade era desejar ir mais longe. Pus-me a caminhar. Desço como um rio. Ligeira. Silente. Nada sinto. Seguro alguns vestígios teus nas minhas mãos. O resto foram ensinamentos que me atravessaste pelo corpo. A cidade não está limpa. Caminho mais por ruas estéreis. Ruas, o que são, no disfarce do sonho?
Ao longe, a casa, na esquina, tem agora, a porta de madeira pintada de amarelo torrado. Meses depois de teres partido, para esse país sem nome, a casa foi tomada por novos proprietários. O cheiro é triste entre a ira e a revolta da tua morte, sem igrejas nem cerimónias. Vejo a praia, negra, estendida sobre a cidade de pálpebras enormes. Ando mais, até cansar o coração e a dor que finjo não importar.
Fecho os olhos e ficas diante de mim. Que faço diante do abismo? Inclinas a tua cabeça para a frente e encostas a tua testa na minha. Ficamos assim, numa espécie de abraço com olhos, nos olhos. Sorris. Meigo. Sem pestanejar, confio-te entre as mãos abertas a bolsa de pano, com as tuas tralhas de valor. Um testemunho do que ficou. Sorris outra vez, numa vibração gentil tal como um bando de pássaros que tivesse desaparecido e de repente regressasse e dizes-me, refugiando a tua boca nos meus cabelos:
-Não te preocupes, vais ser muito feliz.
E sumiste-me de novo, num dever desconhecido.

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