Pela madrugada...
Tenho as mãos sobre o véu. Ou o véu por entre as mãos. Ambas espalham pontos de agulha, sem antes nem depois, em gestos leves, adornando o tecido volátil e em desuso. Os dedos movem-se como serpentes, levantando jardins de relevos brancos, suspensos, na blandícia da trama. A obra avoluma-se, enfeitada de segredos, sem ninguém para ouvir. As mãos continuam, mudas, em construção desse labiríntico afazer atado aos pulsos.
O dia vindoiro anuncia-se de festa. Das nossas bocas derramar-se-ão poemas íntimos, que planarão nos olhares dos outros. O véu cobrir-me-á o corpo e o decote. Instalar-me-ei, verso a verso, nesta casa, quase roçando a areia. A madrugada parece antecipar o festim, no ar povoado de aromas gulosos, no hipérbato do destino das luzes, no vaivém encoberto dos passos alheios.
E o véu, a procurar-me na véspera, indolente à hora tardia, a exigir que o finde, na urdimaça de um sono leve, rente ao desejo e às memórias.
Oiço a tua voz. Alva. Diz o meu nome. A tua voz, rebentando com as ondas do mar que se esvaem no muro da casa e nos estremece nas veias. Fio a fio, a sensualidade cresce. É da tua voz. É da violência da maré. As mãos arremessam para o lado o véu, num aceno escorrido, na direcção certa. Sem alarido, os meus braços estampam num movimento aberto o impulso para o voo. De frente para a janela, o meu corpo baloiça para fora e adopta as formas do vento. Aterro nos teus braços e encho o momento de pressentimentos felizes. Na velada brisa da madrugada.

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