Pesadelo
Parte I
A ilha é íngreme. Exige destreza para manter o equilíbrio. Do corpo. Já da alma, depende dos golpes, dos ventos. A ilha é de contornos oblíquos. Empinada. Violentamente fértil. A sua superfície germina num ritual inocente, plantas coloridas e perfumadas. O restante é verde. Imaturo. Um verde novo que enjoa. Ah! Mas quando chove, a massa de terra circular e inclinada sobre o mar, sacode os pés dos habitantes em pequenas pulsações. Na ilha, vive-se sobre convulsões anãs, numa turbulência pacientemente alisada. À boca da cena, folheando dias no calendário, no exacto momento em que o sol estava no zénite, o chão fez-se numa corrente de terra deslizante em direcção à água. Cega com tanta luz, fui levada nessa marcha esquisita, na vertical, com os pés assentes no solo, num movimento rigoroso e estrangeiro. Para fora. A terra burilava em vagas poderosas, sequiosas do mar. Era a terra, a ilha que expulsava a sua corporeidade em direcção à água. E não o contrário. O oceano dançante, aguarda apenas a profecia.
Tive medo. Não da terra em expatriação. Tive medo. Da água. Da profundidade.
As palavras corriam-me pelos lábios. Num silêncio fundo. Gradeadas por vazio dentro delas. Os lábios. Murmuravam. Frases pálidas. Num braço de ferro, entre a voz e o coração.

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