A assimetria

A indiferença que me deitavas devia ser um jogo. Um divertimento sem causa, a caminhar, a caminhar em redor de mim, a arfar num fascínio cruel. Eu devia trazer uma espécie de mal de receita desconhecida, um desarranjo malandro para o teu mundo de boa ordem e respeito, um sinal de mau agoiro que se infiltra terrível, temível no corpo de quem me recebe.

Aproximaste-te num momento sem nome, nem grandeza. Sobrava no ar uma vertigem arrogante que me deixava a braços com nada. Cercada pelos teus modos acusatórios, adivinhei um precipício a fazer-se debaixo dos pés. Apoiei-me num qualquer sentimento que me arrastasse para dentro de um outro lugar. Fingi num segundo um resgate heróico. Operação avariada. Era o medo que me levava pela mão.

-Tens o cabelo mais comprido de um lado do que no outro. -comentaste azeda, num clarão de desprezo.

Fiquei como uma onda, com vontade de morrer por terra. Viraste costas e abalaste presa à tua sombra a crescer, a crescer na penumbra do longo corredor. Oblíqua e torcida. Afinal.







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