Inumerável

Clarisse dava-se bem com os números, numa relação tu cá, tu lá. Uma aliança instrumental e higiénica na aplicação da ordem afectiva. Um trato matematicamente calculado, na absoluta demência. Destreza de mão e de raciocínio, viravam do avesso e depois do direito qualquer equação ou problema  que se lhe atravessasse. Algarismos, funções, geometrias e computabilidade  projectavam  os abrigos necessários aos seus planos clandestinos. Clarisse distinguia um a um os códigos do medo, dos segredos, e do poder da palavras, que mais ninguém via, tudo com a fragilidade de um sorriso.

No dia em que nos encontrámos, enfiava nos pés um calçado de saltos elevadíssimos. Relatou-me que assim ficava com um ar disciplinado e endeusado e por isso ninguém a incomodava. Repelia pela estranheza, dum acerto excessivo.
-Não a assusto? - Inquiriu-me no calor de uma hesitação empírica.

Contou-me que falava às árvores, apanhava pedras furadas. Raríssimas. Por atacado, tirou  do bolso dois exemplares que exibiu na palma da mão. Recolhia também pedaços de lã ou tecido, e fósforos queimados.
- Com isso, fabrico ideias arredondadas. Originais e sempre curvas. - Esclareceu com o corpo a brilhar pela inesperada declinação da luz.
- Nada de ângulos, porque esses, se agudos ou obtusos, podem ferir e afligir o corpo dos homens. - Acrescentou com um gesto que vem de longe e se imobiliza no ar.

E assim explicou-me em palavras dadas que todas as ideias, múltiplas e diversas, longe de serem raras, esforçavam-se por ser de espécie gira, escoando sadias da sua fronte suada e mãos de menina, como borboletas negras atrás das sombras. Eram fórmulas mágicas, enigmas atarefados em desvendar as trevas do mundo. 

Clarisse afundou o pescoço nos ombros e da boca nem mais um pio.
De seguida conclui: 
- Falar, falar conduz à loucura.
E eis que cravou os olhos no chão à procura de sinais cifrados e depois desenhou no ar um criptograma para me oferecer.

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