Momento pesado

O quarto é de geometria acanhada. Tolhe por certo os movimentos mais amplos, os gestos que tenham comprimento a mais no mundo. Há no ar um cheiro a um não sei quê de irremediável. Qualquer coisa que se deixou para trás ainda por entender. O miúdo geme em ponto morto, deitado na cama com uma das pernas atada num lençol empapado de sangue. Nocturno, o pai do pequeno observa com olhos de quem não suporta a vida, o sofrimento de ambos. Amarrotado, desesperado, por ajuda. Morre por dentro a cada protesto abafado de dor, que se afunda do ar até ao chão, numa lentidão terrível. A lâmpada acesa do teto, faz movimentos circulares de desvelo, como um olho brilhante, atento. Talvez nesse círculo indeciso, tentasse mostrar um qualquer caminho. Enquanto. Enquanto, lá fora, o brado da artilharia, ecoa fundo e sem memória. Aviões sobrevoam em enxames ao ar livre, nas alas da noite.

O homem explica-me numa língua de sotaque difícil que não há meios para tratar o membro lacerado do filho. O mais provável é que tenha de ser amputado. A sobrevivência sem classificação. Duas almas em ferida viva. 
 
Filha da puta. Injuriei sem endereço. Filha da puta. Víscera do patriotismo a lavrar a dor todos os dias. Filha da puta.
 
Coloquei as etiquetas coloridas no pulso de ambos, e escrevi com letras enormes, do tamanho do medo, o carácter de urgência.
 
Aguardámos os três, subterraneamente unidos pela ruína conjunta, deixando cair ombros, olhos e coração. De resto, não havia nada que pudesse dizer:talvez.




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