De cabelo solto, longo e quase molhado de água.
Tinha 9 anos de idade. De cabelo solto, longo e pesado de água. O corpo leve e a pele ligeiramente morena. Os músculos tremiam, exacerbados do frio ou da euforia do medo. Primeiro vomitei muita água, entre gemidos e um choro rasteiro junto ao chão. Aglomerou-se um tumulto de pernas, braços e vozes estranhas, que aos meus olhos mais parecia uma mistura de fumo.
A duração do mergulho [involuntariamente]homicida, aproximou-me o suficiente do lado escarpado das memórias mais lhanas. Uma espécie de projecção de imagens em câmara lenta, correu em fio e sem bússula, paisagens de um tempo vivido, exiladas num silêncio submerso.
A apneia não ia durar tempo adentro. Afogada no pânico, imaginei converter-me numa sereia. O chão da piscina ficava espantosamente afastado dos pés. As pernas debatiam-se sem sucesso em atingir a superfície. Um par de remos atabalhoado.
Apaguei.Adormeci. Sei lá. Depois acordei naquele ângulo raso com o ar a encher-me no peito.
No dia seguinte, voltei ali. Fui com as aves matinais, determinada a serenar a ilha que me soluçava no peito.
Esperava-me na orla da piscina um indivíduo ruivo e coberto de sardas.
- Ouvi dizer que é a tua segunda aula de natação. - Atravessou-se em tom zombeteiro, com um sorriso que fazia recuar qualquer angústia.
Estendeu-me a palma da mão e um olhar que nos prende como se fossemos árvores. Fui. Numa vontade transparente que me enrouquecia ligeiramente a voz. De cabelo solto, longo, quase... molhado de água.

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