A gaita de Alfredo e outros acontecimentos

Alfredo toca harmónica em jeito de blues. Estremecido, profundo, carregando um sofrimento combustível nos ombros e nos olhos. Oscila o corpo em pressentidos desastres. A boca fala um dialeto íntimo entre lábios, na fluidez fotográfica do corpo da sua harmónica. Sempre na mesma esquina, ligada à artéria principal, ao lado da pastelaria. Sempre aquelas mãos torrenciais de cor negra, a abrirem e fecharem em ternura completa, consumidas numa melodia febril e de formas violentas. Sempre, entregue ao instrumento no sopro certo. Alfredo, o músico de blues, respira por e em sons. Ninguém vê, ninguém repara. O som de Alfredo é simplesmente o equilíbrio do mundo.

Um dia, na mesa de rua da pastelaria da esquina, contou-me, num magnetismo inseguro, do aperto em articular as frases e de um nada menos importante fato: um pequeno buraco que lhe tinha nascido no peito.

Ora, após análise cuidada e de posição correta, verifiquei a limpidez do naufrágio sonoro das palavras de Alfredo: cintilavam a olho nu em águas profundas. A desfonética propagava-se para a largura de um caso de estudo. E do singular fenómeno anatómico de Alfredo? Bom, pedi-lhe que me mostrasse a minúscula janela circular que se lhe escavou na pele. Assim, por entre um olhar vadio, abriu a camisa e sobre a carne do peito saltou á vista a dita abertura da dimensão de uma bala. Aproximei o rosto e encostei o olho de mira sobre o orifício. Alfredo tinha a língua cosida ao coração.

Alfredo esperava uma satisfação, uma palavra iluminada. Meti a mão na carteira à procura da bolsa de cosméticos. Apanhei o espelho redondo e abri-o de face voltada para a reduzida cratera. Observou abismado a imagem refletida no vidro, inclinando o pescoço para um lado e depois para o outro. Aparentemente perdido numa dimensão da ausência. Alfredo dá-se conta de que tudo quanto cega é tudo o que deixa ver.

Tomou a harmónica nas mãos e levou-a aos lábios orquestrados, explodindo histórias em letras capitais. E assim perdeu os ossos que lhe eram tão pesados.

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