Apêndices de raízes no extraordinário
Quando dei de caras com Giovanna, a primeira impressão foi de contemplar uma árvore. Tronco alto, membros compridos e uma cabeleira farta de cor de caramelo, a lembrar uma copa de outono pretensamente perfeita. Estancou os olhos na minha figura de fim de domingo, carregando as sobrancelhas, para depois largar no ar umas palavras estrangeiras, indecifráveis e de toada cómica. Ficámos as duas no átrio do prédio, reféns de uma qualquer probabilidade, frente a frente, na química do momento, longe ou perto, não sei bem, com apenas o grande peso do céu sobre o edifício.
[...]
Em maré de boas-vindas, Giovanna aproximou-se com um ar pragmático e cortês. Estendeu-me, com a máxima precisão um livro. Segurei-o, vaga, como um ponto cardeal. As suas mãos, tal duas folhas suspensas, recolheram ao mesmo tempo para o interior dos bolsos do casaco. Sentou-se no degrau a meu lado, inclinando com a cabeça os cabelos amarrotados para trás dos ombros, em sinal de quem se abisma para o repouso incerto.
Abri ao calhas numa página. Esbarrei em palavras-partículas, governadas por uma língua sem qualquer memória. Palavras sem-abrigo arquitetadas numa semântica de falso chão. Giovanna lê alto a primeira frase e insite com um gesto dilatado, para que a repita. Foi um tal andar de letras lidas e quebradas. Um dequalque de vocábulos imprecisos, acertados diante da voz-espelho. Página após página, em pronunciamentos sublinhados, a contornar sentidos pela escadaria do prédio, no trânsito da fonética.
[...]
Chove torrencialmente toda a tarde. A água tomba ao abandono na rua, alheia à nudez do mundo, na tentativa imperfeita de tocar a música, saída dos dedos de Giovanna sobre as teclas do piano. Eu rodopio pela sala, semeando a desordem num vento de dança estudada. Os pulsos de Giovanna parecem alongar-se numa geografia longínqua. A música estala sem algemas. Os meus pés nus e volúveis voam num andamento de pássaro sem espólios. Chove. Irremediavelmente. Chove. Incessantemente.
- Vem amanhã? - atira Giovanna de olhos ansiosos. E atravessa com os braços para a frente, expondo as suas mãos abertas e cheias de dedos, sobejando, na direita e na esquerda, mais dois prolongamentos articulados, de igual número de falanges.

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