Do Mal e da Sorte
Adélia do Prado empurrava, à frente dos pés, o carrinho metálico das compras, arrastando-o num gingar melindrado ao longo do passeio. Volteava pelo bairro aristocrata, repetida e consecutivamente, na quadratura do quarteirão, como se andeja-se com uma nau frágil nas mãos, sibilando pelo ar o instável ruído das rodas a raspar no cimento.
Com a palma das mãos e a dobra das falanges mantinha seguro o leme da dúbia mercadoria: Empilhados uns sobre os outros, numa ordem abandonada de cuidado, ajeitavam-se aos molhos frasquinhos de vidro de tom arroxeado, vibrando como cortinas ao vento contra a rede metálica do lamurioso carrinho.
Um tilintar contínuo a ignorar os códigos da cidade. Uma vibração ligeira, quase imperceptível, da alegria de um protozoário no universo. Enfim, um som-sintoma de enlevo, secreto. Em rolamento sem pausas, Adélia do Prado vendia inalcançável produto para aquela época - unidades de tempo. Raríssima obra enfrascada, exclusivamente feita à mão.
Com a palma das mãos e a dobra das falanges mantinha seguro o leme da dúbia mercadoria: Empilhados uns sobre os outros, numa ordem abandonada de cuidado, ajeitavam-se aos molhos frasquinhos de vidro de tom arroxeado, vibrando como cortinas ao vento contra a rede metálica do lamurioso carrinho.
Um tilintar contínuo a ignorar os códigos da cidade. Uma vibração ligeira, quase imperceptível, da alegria de um protozoário no universo. Enfim, um som-sintoma de enlevo, secreto. Em rolamento sem pausas, Adélia do Prado vendia inalcançável produto para aquela época - unidades de tempo. Raríssima obra enfrascada, exclusivamente feita à mão.
Procedente da inclinação naturalista do pai e do desvio artístico da mãe, Adélia movimentava-se presa à vontade onomatopaica de uma vida dupla, movediça, transubstânciando-se na coisa-tempo, como um acordo de cavalheiros. Fabricava em químicas insodáveis, a duração do tempo, que guardava em pequenos boiões de cor violeta.
Circulava ali, às voltas pelo passeio, como um ponteiro do relógio, na sua funda convicção, pronta a regenerar o mundo.
Cruzou-se comigo na dobra da esquina e o enigma tornou-nos iguais. Retidas na estranha intimidade de pensamentos em combustão, proferiu em pálida rasteira:
- Do conteúdo deste frascos não se arranjam os teus motivos. A distância é o teu mal, querida.
E quase de costas, entalou no ar, com um sorriso de réveillon:
- Mas tens aos teus pés tapetes, voadores.

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