Dos atrasos de Vicente e dos avanços de Custódia
Vicente era lento. Lento de gestos e de raciocínio. Quase nunca conseguia explicar onde estava nem para onde ia. Quando corria, apressava-se com os braços e as pernas para trás. Um desastre. Ria baixinho e pendia o corpo para o lado onde as memórias lhe pesavam mais no cérebro. De jeito ronceiro no menear, Vicente falava pelos cotovelos. Eram línguas estrangeiras de sítios por onde não se anda, a fugir-lhe pelos cantos da boca. Discursos perfeitos de palavras, arrumadas em diálogos, que nenhum miúdo do colégio sabia soletrar. Aos olhos dos alunos, isso fazia de Vicente um génio. Um génio lento. Andava pelo recreio com as mãos presas atrás das costas, como se as castigasse por estarem sós. Mãos que não alcançavam mais do que a si próprias.
Num dia de silhueta prematura, apareceu Custódia. A miúda de sapatos vermelhos. De ares inopinados apressou-se a desenhar, sem perder o caminho, traços e linhas desimpedidas sobre qualquer superfície que se lhe ponha a jeito. A partir desse dia, foi um tal andar de riscos, transformados em gravuras destapadas, nas paredes, no chão, nas mesas, nas cadeiras, nas janelas e portas. Os desenhos ordinários, alastravam-se desinibidos, num atentado sem regras, a falar a verdade. A boca de Vicente abriu-se continuamente num silêncio corcunda, como quem aleija a voz, num medo sem dono de estragar tudo. Vicente, o lento, o génio, tem a vida numa reviravolta. Tudo por culpa da miúda de sapatos vermelhos e com modos de avanço. Sim, a miúda de gestos e falas rápidas, que lhe respondeu à letra em todas as suas línguas estrangeiras, num apunhalado afiado, enquanto rodopiava o corpo pelas arestas do de Vicente.
- Raios de miúda, praguejou para dentro.
Já de nada lhe serviam o trejeito demorado nem as mãos atrás das costas.

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