Talvez seja.

Quando os oficiais nazis circundaram a vila, quis que a noite se fizesse cerrada e o silêncio a querer ser sempre mais alguma coisa, uma qualquer coisa  que pesasse menos e voasse mais. O vento, essa massa de ar sem discernimento, torcia o rosnar dos motores das dezenas de jipes e camiões militares. As estradas arrefecidas, de olhar cansado e vazio,  reviradas, daqui para ali, dali para aqui. Um formigueiro plantado na praça principal. A certeza, para lá dos nomes, de uma inquietação cobarde, pesada como chumbo a estremecer ruas, passeios, jardins e casas. Chegava também às pessoas. Uns roiam as unhas, outros enterravam a cabeça nos joelhos, outros ainda atiravam lágrimas contras as calças.

Peguei em ti ao colo e fugimos pela escuridão. Agarradas uma à outra, corríamos às cegas, balanço após balanço, para o interior do pinhal. A noite era sem contrastes, nem sombras, nem estrelas, nem luas. A noite queimava os gritos distantes. Nós as duas a perfurar a solidão, escura e densa, com os corações cheios no peito. Atirámo-nos no desembaraço da sombra, como pássaros, de bocas mudas, na salga de uma tentativa de escapatória. Nunca a planura sombria, noturnamente excessiva, tivera tanto poder securizante. 

Talvez hoje seja um dia bom. Talvez hoje seja, o fim do mundo.

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