Disfasia no enredo

Não confirmo nem desminto o acontecimento. É, em partes mal medidas, de porções de verdade e de ilusão. Aproxima-se de um feito Houdinesco. E às tantas, o mundo imitaria a façanha, com certeza.

Ora sem segundas intenções, para além do xeque-mate alçado à imensidão do mar, as barracas de pano às riscas, alinhadas na linha da frente da praia, triunfavam de rigorosa quietude. A égide de toldos esticados na horizontal, numa espécie de cortesia militar, faziam a habilidade impressionante de suportar o castigo do sol. A pele quase nua das pessoas agradecia o ar morno do dia, a trabalhar desde cedo, nesse pacto de significação que pertence ao tempo livre.

Estava só e de relógio emudecido, quando, de imprevistos contornos, a ousar uma vingança prometida, ergue-se do oceano uma onda de pó negro. Forma-se sem doutrina, encaramujada no ar, como o segredo de um livro. A vaga-fumo, densa, estreita, escura, lança-se para o interior da barraca, sugando devoradora os objetos vulneráveis. Confisca tudo num sopro cirúrgico. Depois recua, mal se equilibrando no ar. Suspensa na mora da pluralização da ardil realidade. Acumulei logo ali uma vontade de rir e chorar. ... viro-me desatinada, perdida como se estivesse no fundo de uma gaveta.

Tu chegas, finalmente, no descalabro da pilhagem insólita, com dois pacotes de pipocas doces numa mão (ou seriam tiras de milho?)  e dois copos altos de plástico com refresco de café, presos entre o outro braço e o peito. Sorris-me à maneira da chuva, conforme ao meu gosto e aos processos irreversíveis de entropia. Sabido que erámos para ser um par.

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