Amparo

- Não estou p´raí virada. - Disse-te, desalinhada como as luas de janeiro. De costas para ti. O lábio finamente rasgado. O sabor ferroso do sangue na boca.
A tua mão, instrumento louco pregado ao pulso, empurra-me de frente para a fenda. Uma passagem estreita, delgada ao jeito de um inferno. Longo caminho vazado entre duas paredes altas, quase arrimadas de tanto conluio. Tão fina, como de sombria, aquela costura aberta no betão.
O corpo contrai-se em sentido para fora, para nascer, talvez.  Do outro extremo esgueira-se uma claridade assombrada, vincada no golpe entre as duas paredes. Atiro-me como uma bala.

- Onde te abrigas? - Inquires perturbado, do fundo da extremidade que fica para trás.
- Nas palavras. - Respondo desossada, na sombra de um destino rasgado.

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