A dinamite do fim que nunca chega

Acho-me no interior do elevador. Em sentido ascendente, atravesso vários pisos. Dentro da caixa transparente, contrariando a gravidade, perfurando o delicado  espaço roto. Trepo para além do razoável, exausta pelo silêncio e pela visão das camadas de andares que escorrem para baixo, caindo para o seu lugar. 

Levanto com ambas as mãos o peso dos cabelos, descobrindo a nuca e o pescoço. O calor levita eufórico pelo ar, empenhado na sua existência. 

Chego ao topo, ao que parece ser acima do céu. Abre-se a porta, num giro dormente. Há uma entrada esquecida, afastada das correntes de ventos. Move-se o meu corpo fácil. Para lá. Desdobram-se divisões enunciadas de mobília e identidade. Vagueio secreta, oculta, nesse miolo de casa. Esgueiro-me fêmea, atenta ao próximo passo.  É um puro movimento. O riso que me faz. Simples, como a morte.

Simulo que não sou do teu tipo. Na margem do espelho. Encaras-me do terço abstracto da tua pose. Livro-me do vestido, chiando, caído aos meus pés. A pele húmida conduz macia a palma das minhas mãos sobre as ancas. O ar quente distrai-se impensável na rotação das pás da ventoinha. O tecto, nesse manifesto helicoidal, agita o ar. Morno. Envenena-o à facada. Sem adiantar nenhum gesto, de corpo nu, naufrago na tua voz.

Hoje não te perdoo. Nem um grama.

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