Naufrágio
Contava com a blusa leve e transparente, para ver um barco a afundar-se. Os meus olhos já de si continham um oceano. Preso. Tinha tudo para escapar a um naufrágio: calções de ganga, sandálias rasas, um chapéu enorme e a amarga vitória de palavras não pronunciadas.
Aproximo-me da vidraça com vista para o jardim. O sol abarbata-se à realidade com braços luminosos dilatados, pensativos, mas cheio de ignorância de si, crescendo, oferecendo-se, propício à casa. Perfeito é. O anel entalado no anelar. Rodo lentamente essa metáfora demasiada, a pernoitar no pretendente dedo. Enterro o olhar nas maçãs que vivem sossegadas na fruteira, de pele verde e lustrosa, a jurar garantida suculência. Pego numa, respiro-a como se fosse um corpo e levo-a à boca para enfrentar a salvação.
Lembro-me da gritaria no corredor do hospital. Das pessoas a correrem desenfreadas para fora dos quartos, a tentar fugir do medo. E tu de pijama aberto, carregado no tronco e nos braços de um movimento de penetração na fé. Tinhas-te enrolado em explosivos. Descalço, espantado, berravas o teu ofício. Pronto a parires um fim.
As portas abriram-se violentamente de par em par e depois veio um relâmpago, a ferir a carne desamparada. Calhei para trás de uns tantos corpos amontoados. Surda. O calor abraçava as extremidadas. Brilhantes eram as feridas abertas. Deixei que uma dor me despertasse para que pudessemos voar. Um dentro do outro.
Contava agora com a blusa leve e transparente, para ver um barco a afundar-se. À procura de melhor desastre.

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