Maus fígados
- Nesta altura do ano a paisagem ganha uma luz doirada. É como se estivéssemos num país novo. - Constatas, ao raiar do dia, virado para o céu inteiro.
- Ó isso! É apenas o reflexo metálico da luz do sol sobre os ferries, nesse movimento arrastado sobre a água, de uma margem para a outra. - Desvalorizo, entre clarões de luz que se acendem sobre a superfície das águas adormecidas do imenso lago anil, a derramar-se até à borda da terra firme.
Estico o silêncio que fica entre nós. Despeço-me da distância, de voz adiada. Faço um gesto que se perde no corpo. Dou ordem aos pés para se porem a caminho pela margem estreita. Os passos levam-me adiante. Recorto como um pião perdido as curvas dentadas daquela terra ruim. Tu ficas para trás desusado, amarelecido pela luz do dia.
A escolta da água é uma certeza, placenta-água, encostada, derramada ao longo do corpo-terra onde piso, cumpre o dever de me aprisionar numa gaiola líquida. Eu, dada à veleidade das liberdades e comprometida a espíritos súcubos.

Comentários
Enviar um comentário
Sub|estância|s