Porque fazio frio e vento
O homem devia vir de longe.
Tão longe, tão longe, que era ridículo determinar a distância, mesmo que se a imaginássemos de olhos fechados.
Talvez do alto de um rochedo, encostado ao passado.
Ela, absolutamente perdida diante das palavras, a tentar esconder a inteligência como quem esconde um objecto, nada falava. Parecia uma borboleta estúpida.
Ele, sereno sobre o vértice da manhã, estacado num mutismo excêntrico, começa a baloiçar os dois ombros e depois os seus dois braços, ajeitados ao longo do corpo como um par de barras de um gráfico. Agita-os num movimento circular, como quando se afina um veneno em dias mesquinhos. O gesto rotativo, da direita para a esquerda, desenha no ar uma espécie de linha equatorial sobre o homem. Ela observa-o, parada, sem o interromper, mas poluente.
A deslocação dos braços organiza-se numa rua curva povoada de gente, sem tarefas para acodir. O homem, como se tivesse tempo ou fosse sábio, converte-se, numa mudança súbita e plena de leveza, num outro. Numa outra invenção humana. Depois seguiu sincronizado como se fosse um só e abandonou aquele espaço. E porque fazia frio e fazia vento, e não havia um sintoma de vingança por perto, ela com tanta coisa por resolver, opta por aceitar o fim em si mesma.

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