Como quem não quer a coisa

Leva-me ao teatro. Tu sabes o quanto eu gosto de teatro. Ultimamente não tem acontecido. Nem teatro nem vindimas. Os tempos estão difíceis para dispor de atmosferas doiradas. Mas podias-me levar ao teatro, um destes dias. Depois, sentar-nos-íamos no café da praça, em conversa mimosa por dentro do drama, enquanto trincávamos a meias, sem a pressa da fome, a morna tarte de maçã, mestria confeiteira ...
da D. Augusta. Sujeitávamo-nos à luz ardilosa dos candeeiros de rua, perseguindo as mínimas variações das sombras dançantes das árvores. Às tantas começarias a imitar um qualquer sotaque estrangeiro, arrumado num tom de voz erguido e seguro. E eu entraria no teu cómico desaire de modo inconsequente, e lá viria o teu braço-foice à roda da minha cintura, a puxar-me, apodíctico, para ti. E eu deixaria que os teus olhos ardessem no meu corpo, num teatro amador, à tangente da noite.

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