Ângulo improvável

Desde que as pernas deixaram de se mexer, a liberdade tornou-se numa dúvida qualquer, agarrada aos ossos. Não mais para além. As nódoas na carne, sombras escurecidas, eternizavam o desarranjo instalado. Recordavam a força produzida pelo embate de quando se cai. Neste caso, do andar mais alto dos erros. A cara não tinha ficado famosa. Era uma espécie de meia face da morte. Explícito, o hematoma na cova do olho esquerdo, assemelhava-se a um lago negro, profundo, como o medo que se tem da alma. Tudo estava por um fio, como na vida. Custava-lhe lembrar-se das coisas, as certezas tinham-se posto a uma distância estranha e reservada. Encolhidas, talvez, por um susto amargo.  Sentia-se numa existência desmemoriada. Sujeita a esquecimentos para os quais não foi treinada. Por mais que cavasse na memória, a cova estreitava-se. Não se armava nem o antes nem o depois. Apagou-se-lhe a história. Sepultada, num corpo enganado.

No mundo ao seu redor, as pesssoas buliam, adejando-se como abelhas zelosas, reclamando a colmeia, apanhadas num vício moderno de se agitarem superficialmente. Trouxeram-lhe os melhores especialistas em curas. Personagens tantos. Respostas muitas. Subjectivas. Distracções. Sentia possibilidades. Desacreditava-as. Dividia-se. Limpou a mente. Um ponto visível não bastava. Precisava da cronologia. Esse contorno apagado, desfeito num oito. Em poucos dias.
ACP

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