O pasmo de Consolação
O inchaço de Consolação na zona anterior do pescoço era misteriosamente um fenómeno elefantíaco. Não que Consolação fosse em si mesma um corpo em demasia, mas o ajuntamento de polpa instalada na garganta, moldava uma bola fermentada em jeito de querer se dar ao mundo.
Lá na terra, o povo sábio nos alívios das dores e nas madraças de aves-marias, profetizavam que toda aquela manifestação esdrúxula de carnes, eram palavras entaladas, de intenção travada pela língua, que com o tempo enfunou para dentro e se mostrou assim, avolumada, a desmando da vontade. O melhor era ir cuspindo para o chão em círculo, diziam, a modos de quem se descarta de um segredo, tendo por perto um ouvido alheio para as escutar.
Consolação resvalava pelo cansaço de tanta palavra impensada e mal-dita. Enredava-se no exercício da insónia. Mordia a voz e depois expulsava-a, com nova geometria, em chão de praça pública. Sem canto e sem aplauso, eram ouvidas à hora gratuita do vento, as palavras tolhidas de tão encravadas que andavam. Deu-se tempo para a cura tomar brio, mas não havia meio do gargalo de Consolação desinchar, rumo à salvação. Entortado, o pescoço alargava em espaço, sem contas lhe prestar. Preso em adorno garbo, à volta da respeitosa garganta, assentava-lhe um colar. Enfiada provocatória de pedrinhas, de quem se quer livrar de tamanho fado. Sempre que Consolação abria o bico para revelar o desalinho de palavras que pedem saliva, as contas do fio deslizavam na geografia da pele, como berlindes no espaço da rua, oscilando em gráfico para cima e para baixo. Que é com quem diz, a inventar caminho.
Pois então, um dia, quando a sombra pescoceira de Consolação florescia sem negócio, e lhe veio uma dor antiga, a mulher anunciada de sobressalto, fez pressa nos pés e atirou-se de cabeça desvalida para dentro de um poço.
Não tardou que gente viesse abalada ao prazer de uma migalha de desgraça. Consolação, de pescoço partido, perdera o apetite, as ideias e os caminhos. Anoiteceu antes do tempo, naquele povoado no mundo. Mal temperada e de mãos frias, Consolação fechou os olhos. Ao largo um cão latia, reclamando a estrada.
ACP

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