Por culpa das vassoiras

Albertina trabalhava numa fábrica de vassoiras. Daquelas com o cabo em madeira maciça, de cerdas naturais e rijas. Vassoiras do antigamente, preparadas para roçar pelo chão, arrastando quilómetros na direção das sobras. Albertina, de cabelos poluídos de azar, era uma mulher restrita de riso, de boca muda e narinas estranguladas. Sobre a força da mão esquerda, à mistura do suor, no peso das suas coxas, apertava entre pernas uma gravidez indesejada. Ao fim da tarde, em segredo isolado, no monte descascado de vegetação, foi estagnar a sombra prenhe que lhe adonava a figura. Não doeu mais do que três ondas rebatidas. Depois, sem muita sangria, porque nada disso a terra pede, limpou o desmanche à vassoirada. E no encadeamento natural das marcas, Albertina, nenhuma vez mais se atreveu no caminho de ida e volta à fábrica das vassoiras. As tais que varrem vínculos sobrepostos, atordoados na rixa do tudo que não está, sem tato.

Comentários

Mensagens populares