Tiro ao alvo
Há quem tenha outros hábitos, outras disposições ou vá em confrarias.
Ela tem a sua própria idiossincrasia, em jeito falsário de protocolo e de boas intenções. Volta e meia há um antebraço que se lhe ousa levar dos surtos de uma realidade sem domínio e de papéis invertidos.
O corpo toma a direcção da carreira de tiro, a querer acertar em alvos suspensos de pérfida tolerância, legítimos herdeiros de uma morte pronta. Louva-se-lhe o gesto de descarregar o revólver inteirinho na mira, armado numa pose esconsa de fúria virada do aveso e um tanto de frustração em voo raso.
É uma coisa sublimada como devem ser as coisas violentas, obrigadas à pertença de um todo qualquer, que se quer, ainda que coberto em erva daninha.
Despe o casaco quente de inverno. Troca-o pelo colete, e o tempo deixou de contar. Enfia as luvas de pele no curso dos dedos. Assenta as devidas protecções nos ouvidos e o cerco aperta-se. Silencio, há uma mulher dentro de muitas. Respira fundo, os ombros giram num movimento rotativo para trás. Inclina o pescoço para um lado, depois para o outro. A cabeça ergue-se. O corpo equilibra-se sobre as pernas semi-afastadas,num acasalamento perfeito entre o movimento e a desolação. Levanta os braços, ligeiramente flectidos, segura a arma entre mãos, como um objecto sagrado. Os olhos semicerrados, focam o alvo da silhueta humana preenchida de curvas concentricas, riscadas a vermelho. A respiração adia-se e o indicador encolhe o gatilho com vontade do combate dos homens práticos. O primeiro estoiro. Estremece-se, entre a palavra e o signo. A bala voa em direcção ao centro da figura de cartão. Outras tantas se seguem. Outras mais ainda. Até esvaziar o tambor do revólver. Saltam as cápsulas num erotismo necessário à construção dos afectos, tombam aos pés. São as sobras de um festejo íntimo, sem espaço para mais ninguém. Quando o resto é o falhanço. O fiasco.

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