Particularidades Do Sintoma

Engrácia era a dúvida de um prelúdio, um espírito em devaneio caído sobre o cérebro, os braços e o peito. Engrácia era uma obra à sua maneira, a demonstração de uma existência ilusória. Pertencia-lhe um modo obscuro e desgraçado de se inscrever no curso do mundo. A tragédia acolheu-a distraída numa guerra entre povos convencidos de gestos libertadores, mas somente servis ao brilho negro da morte.
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A cabeleira farta de caracóis, afastava-a do socialmente prudente,  coroando-lhe sem economia a cabeça. Uma juba que ultrapasava a mera materialidade, aparentando uma aura metafísica na estética de todo o corpo. As roupas largas e desavindas, em cima dos ossos estreitos, agarradas decididamente à sua imagem, garantiam a ilusão da sua própria substancialidade.  
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Engrácia em forma de desapego, arrastava-se todo o dia pelo parque da cidade. Uma peregrinação na tentativa de descoberta não de quem é, mas daquilo que é ao ser em si. Possuia toda uma habilidade avançada para maquinar com agenciamento artístico, armadilhas aos pombos que por ali faziam caminho ou abrigo. Em todo aquele terreno verdadeiramente arborizado, residia um povoamento mortífero de engenhos da sua autoria. Acto artístico a aguardar passiva e criminosamente as aves ingénuas.
Aos fins da tarde, Engrácia recolhia-as uma por uma num gesto gótico e carregava-as sem drama para o interior de um saco plástico.
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Chegada a casa, último lugar de um elevado edifício secular, de relação distorcida com o mundo e com o tal jardim urbano esticado a seus pés, Engrácia escaldava e depenava as aves mortas num ritual de natureza hipnótica. Depois cozinhava-as, num guisado trabalhoso sujeito a uma espécie de mandamentos divinos. Concluída a tarefa sensorial e gastronómica, Engrácia dispunha a preceito, sobre a mesa comprida, pratos, talheres e copos, tudo em dobro. Cuidava que a travessa amarelecida de loiça vidrada, adornasse o centro da mesa com a estrangeira iguaria. De um canto da sala, deitava um só olhar, em pura contemplação sagrada, a realidade, parecida a uma colagem de imagens.  

Nessa sensibilidade de um mundo de estilhaços, Engrácia abeirou-se do topo da  mesa e ajeitou-se, de acordo com o espírito da sua obra, na cadeira esquálida. Do outro lado oposto, compostamente sentado, numa inocência inocente, o convidado. Um manequim de plástico sem o olho e o antebraço direito, apanhado dias antes do lixo, ocupava o carácter gratuito do gesto generoso de Engrácia.
Engrácia e o boneco iniciaram a honrosa refeição e um diálogo imaginário e incorruptível, na vontade seca de transformar a fragilidade do abandono.


E lá fora, o mundo continuou a girar desgastado, pregado ao nada.

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