Metade de mim é silêncio

Dei por mim numa praia. De pés descalços enterrados na areia fina e macia. As mãos tensas seguravam o gradeamento arruinado do cemitério, estabelecido ali, como uma ilusão, a confundir as convenções. O corpo, voltado de frente para o terreno-santo, comprimia-se rente, à mudez das grades, tentando unir-me num trágico sentido de alcance de um qualquer pensamento, que activasse alguma força, e com ela um gesto de luta. Atrás de mim, a turbulência da maré, que se aproximava sem moral, em ondas crescentes, erguendo-se enfurecidas no ar e depois fustigando a areia sem técnica nem esquema. E a água subia apaixonada pelo seu próprio ruído. As vagas lançavam-se em conflito sobre toda a praia. O areal era engolido a pouco e pouco, tendo-me restado recuar para junto da muralha ferrosa. Era um extenso braço, descrevendo um arco pelas dunas a separar dois reinos, o do silêncio definitivo e o do abismo das coisas informuláveis. Entre as palmas das mãos, as barras de metal oxidado, exigiam que olhasse a minha sombra, sem medo do luto. Pelas costas, a ameaça ambiciosa da água em me querer tragar, na sua boca oca e côncava, levando-me para outras afectividades, para lá dos átomos, talvez.

Abandonei-me por momentos numa condição paralisante, numa obra do diabo, ocupada na ausência de rumo, enquanto um mar desgovernado cuspia sobre o ar uma massa de água, atingindo-me com  a vontade de me levar dentro dele. Dominada por uma imobilidade vândala inspirada no medo, cravada até aos ossos, entorpecia numa intenção criminosa condenada, à partida, ao eterno desprezo.

E nesse vazio despovoado, exaurida de tanto embaraço, dei ordem às pernas cambaleantes que inventassem passos, ligados a ti. Obedientes e delgadas, avançaram, arrastando com elas, o meu corpo, deserto de falar ao teu, mais e melhor que os verbos. 

|ACP|








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