Da violência das frases
Adelaide usava dentes postiços. Desde que lhe estoiraram com o maxilar num combate independente, perdera irremediavelmente a maioria da dentição. Saltavam-lhe agora os gestos livres e não pensados, próprios de uma contaminação valdevina. Apegou-se ao pugilismo quando a vida já era pouca. E não era por causa de medos ou de vazios que os punhos cerrados se afundavam em choque, numa perseguição patológica. Era uma mistura de afectos calados dentro dos músculos, saindo no risco incontornável de um relâmpago.
Adelaide abriu a porta e sentou-se na cadeira vazia, torcendo com força os dedos inchados e rasgados de sangue. Tinha feito uma estrada perigosa e carregada de pó. Trazia numa mala pequena quatro malgas de marmelada e duas garrafas de licor. Inclinou-se como quem encontra a paz e diz:
- Agora, cure-me.
À tremura das pestanas foi o bastante para eu ficar kO.

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