Desdobramento simbólico

CENA I
Partir era fundamental. Uma urgência lançada a alta velocidade. O anoitecer avançava pacífico. Embrulhava-se, em câmara lenta, na cor de âmbar das luzes eléctricas dos candeeiros das ruas. A estação de comboios afundava-se num mar de gente, de um lado e de outro das plataformas. Dois sentidos apenas, assentes em dois únicos pares de linhas de ferro.
Comprei um bilhete de ida e dirigi-me para uma das carruagens adormecidas. Escolhi uma, ao calhas, do longo conjunto de vagões, unidos em anéis metálicos, com talento para furar a obscuridade das sombras. Não havia um objectivo certo, a não ser deixar à solta o desejo. Sair de um círculo, soltar os demónios, sentir o mundo a entrar pela palma dos pés. Arrumei as bagagens dentro do comboio e saí para fora, à procura de uma pausa, afastando para longe o lado bravo do tempo a contradizer os sinais. 

CENA II
A estação agitava-se no ruído justaposto das partidas e chegadas.
Afastei-me dali por instantes, daquele terraço de embarque e desembarque, em golpes de remo não ouvido, enquanto o bruto da hora não dava entrada. Devo ter naufragado em pensamentos sem rumo, considerações soltas, deixadas pela corrente de ideias. Num salto, voltei para dentro da pele, e corri subalterna para a estação.
O comboio em marcha afastava-se rectilíneo, como uma barata no armário, na luminosa perspectiva do crepúsculo. Confrontei-me aflita com a perda das malas, símbolo de algo que já era, que já foi e que não mais se espera. Mas nenhum ai, nenhum tropeço na saudade, só um espaço largo no peito. Fiquei ali imóvel, como uma árvore entre árvores, a ocupar um lugar, entre aquele palco quase despovoado. 

Do lado oposto, a azáfama refazia-se, milagrosamente, num acesso crescente de algumas despedidas, de singelos propósitos comerciais, do nervosismo existencial de quem se ajeita no trabalho, da espera duvidosa de um dia menos duro, da conversa sem cais nas bocas confidentes, do silêncio bem afiado de quem vê com as mãos. Um ancoradouro a renovar-se indiferente à luz quase fatigada.

CENA III
Um detalhe rasteiro, apanhou-me como uma menina que se esconde - a chama da tua voz, a romper ávida, no meio da multidão.Os teus olhos fixos como se mutilassem todas as esperas. O movimento do teu corpo a fluir para a liberdade do espaço que se põe a descoberto pelos encontrões e desvios desajeitados. E a um palmo de mim, os teus braços abertos, urgentes, cingem-me num afago incendiado. Envolve-me a espessura da tua respiração, o repouso da tua boca nos meus cabelos e o prazer da vertigem do mundo continuar a girar. Isso ou um beijo.

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