Correio nada perdido ou esquecido
A encomenda foi uma surpresa. Além do
que se espera. Além do que se sabe.
As mãos da mulher seguravam a caixa de
papel num gesto mudo, pousado à volta do trabalho. Com o auxílio da lâmina,
modelada apenas pelo pensamento, rasgou uma abertura sob a superfície canelada
do papelão. Depois afastou com precisão cirúrgica as extremidades para expor a olho nu
o conteúdo. Era um maço de notas. Um valente maço de notas prontas a correr
livres. Destacou o papel branco pelo picotado colado na caixa de cartão e virou-o
de rosto para mim. Via-se que estava habituada a proceder a negócios assim, dinheiro
fora da lei, pronto a partir para outras mãos.
Com os seus três olhos escuros de cor
de precipícios, dispostos numa simetria triangular ente os espaços oculares e o
meio da testa, teimou para que assinasse o pedaço de papel pendurado. Aproximou-o
pelo tampo da mesa como uma fumaça. Atrelado vinha a tua fotografia sem
palavras. À medida que imprimia o meu nome, as palavras iam ocupando um espaço
alongado num escrito em três dimensões preso por um fio de tinta. A mulher de
olhos ímpares e atentos, registou o papel legitimando o momento, fitando-me
como um prédio que medita.
Com um volume de notas na
mão e a tua fotografia que implora um bom motivo para perder a integridade,
achei-me como num labirinto guardado por um touro. Hoje não quero nada. Nada,
senão o impossível.

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