A razão, por mais cenários que se armem, conta muito pouco.

Lá fora a noite faz-se em luto, carregando no olhar, já desfeito, uma tempestade. Num plano soberbo, virado para a rua principal, vêem-se os tejadilhos dos carros a deslocarem-se nervosos na avenida, desaparecendo momentaneamente por entre as copas das árvores antigas. As ruas fecham-se em cima do asfalto molhado, como se fossem assistir a um eclipse. No céu apaga-se e acende-se um clarão. Depois soa um troar doloroso, uma e outra vez, como uma dor antiga que vem reclamar o seu lugar. A chuva bate confusa sobre os telhados e as janelas, independente, persegue o mundo como um cão misterioso. O vento carpe, ávido de poder. Deambulo pelos quartos, e saio para a rua. 

Não sei quantos quarteirões atravesso debaixo de um tipo de chuva com uma vontade cega de castigar ou cumprir ordens. Os meus olhos tudo procuram e abraçam, na tentativa de contrariar o sentimento de uma vida em rodapé.

Passo por ti sem te ver, naquela teia enferrujada, a que chamamos cidade.
Tu, do outro lado da rua, por detrás da vitrine, dispensas-te da companhia e segues para fora, com toda a tua falsa noção de equilíbrio. À frente, desembocamos no mesmo caminho, encharcados, repetidos, medíocres, autênticos, nervosos, assustados e atrasados...tão atrasados.

A chuva continua a tombar, apertando cada vez mais o espaço entre os pensamentos, as sensações e os gestos. Ficamos presos nos olhos um do outro, numa espécie de entendimento secreto, confirmando que os dedos são saudade e os corpos desejo. 

ACP |12.013|

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