Maria, é mais ou menos uma?

Maria do Céu punha-se todos os dias de frente para a morte sem grandes orações ou arrepios. Enfeitava o pulso de amuletos e sem respeito pela idade ou pelo futuro, saltava pela janela do prédio. Mandava-se de corpo e alma para o espaço, livre de fronteiras ou arestas, como uma folha perdida. Maria, de origem celestial estava farta de missas cantadas e paciências da china, dos mesmos actores, das mil e uma mentiras e do ror de impostores. Maria pontuada contra os maus ventos ia apertando o queixume, mas o chão, margem do abismo, simplesmente fugia-lhe. Dia sim, dia sim, a imagem arquitectada na sua cabeça encenava um plano sem erros. Primeiro, abriria a cobertura da janela, fazendo-a deslizar nas linhas de alumínio, que ilustram a divisão das dezenas de biografias dos inquilinos, vistas pelo contorno dos vidros quadrados, multiplicados pela parede do edifício. Depois, quando o ar se tornasse uma realidade, treparia com o pé direito e depois o esquerdo, balançando-se na superfície do parapeito. Então apoiada na democracia dos seus pés, ergueria o corpo nítido e ingénuo, semicerraria os olhos na teia daquela loucura e focaria o cérebro em blocos de memórias, ligando-os silenciosos aos átomos. Quando da finura dos dedos, entrincheirados no optimismo dos anéis, prendesse a bomba contra a concha da mão, revolveria os ombros para trás e largar-se-ia na atmosfera de braços abertos como um pássaro, discernindo em cada golpe de asas o inseguro equilíbrio que fala mas não diz.


Maria esvoaçava, embalada no vento, sem a capa de um herói, para fora de uma janela, que esconde do outro lado todo um mundo mas que nunca é o mundo que se vê quando a janela se abre.

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