Uma década é um campo largo semeado
Não me lembro bem como apareceste, já que eu não te inscrevi em nenhum horizonte de espera. Revelaste-te no vazio nocturno, vindo sei lá de onde, agarrado a um silêncio feroz e determinado a comover-me. Mais silencioso que o céu paraste na verticalidade dos teus quase dois metros de altura. Abriste os braços, num movimento lento de concha que se revela sem disfarces. No delírio que nos atravessou abrigámos um no outro a nossa fome talhada pelo tempo. E os joelhos quase a cederem. E uma explosão de papoilas por dentro. E ambos rendidos à frágil condição de estar vivos. Eu sim. Tu não. Ou talvez esteja morta também e não saiba.
E assim na concavidade do teu abraço, sondei demorada as tuas costas. As palmas das mãos, num culto sedento tentavam decifrar algum enigma, algum medo, arremessado para trás dos teus ombros, enrolado na tua sombra que me procura.
Inclinaste então a boca do meu ouvido sem que nada o adivinhasse. Dela sopraste, como uma aviso, uma pergunta, suspensa no voo da tua voz de sabor a chocolate quente:
- Se tivesses mais dez anos de vida, o que farias ?
Sempre tiveste a mania de usares a metafísica para dizer algo assombrado pela catástrofe. Tive a sensação de regressar apressada a lugares onde a intimidade é uma estante, na qual por vezes mal chega a luz, e de onde se escolhe o verso, a praça, a esquina, a casa, o andar, a porta, a chave, a cama, onde se quer ir.
E talvez entendesse, assim encaixada em ti, com a paciência dos gatos e com o esqueleto em chama, que afinal não seria a tua voz a perguntar, seria a minha:
- De que serve a acusação constante de um relógio quando um diálogo pode mudar uma paisagem?
ACP

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