O objecto que chamamos vida
Para seu governo, Ofélia praticava a arte da agiotagem. Concedia a usura sem remorsos. Protegia-se todavia de eventuais prejuízos, acautelando-se em cláusulas e artigos que desviam a cara à lei e sobretudo garantem elegantes trunfos e gládios que faziam duvidar do direito da existência das pedras ou micróbios.
Ironicamente, O nome Ofélia deriva do grego, que literalmente significa ajuda, socorro. Um ofício cumprido em habilidade discreta e em toda a sua boa vontade, despojada de decência ou de vergonha. Em contrapartida, uma longa aprendizagem pela novelas familiares polidas de pulhice, picantes de nomes e de detalhes , golpes incómodos e outros vagamente cómicos, serviam-lhe de utensílios traiçoeiros que mantinha à mão de semear, enchendo-lhe os bolsos e o carácter.
A pretexto de preencher um espaço vazio, fazer palpitante a vida, de domínio, ao castigo desencontrado dos outros, a especulação era o arado necessário para agasalhar os apelos do quotidiano e o do freguês. Os primeiros por intensa volúpia, os segundos por desespero.
Aos cinquenta anos, a vida não nos pede grandes decisões, afirma-se na profundidade do tempo e de tudo o que já se sabe, fitando-nos com um ar majestoso e desembaraçado das formalidades. Assim se apresentou Ofélia, do alto do seu ilustre meio século, extraordinariamente pálida no seu vestido magenta. Os braços desenharam num ar dois lindos arcos arabescos na minha direcção. Apertou-me contra si num gesto protector.
Ofélia tinha-me procurado. Mandou um estafeta logo pela manhã cedo ao meu encontro. Um homem de uma voz calma, pele negra, de aspecto impecável e arruinado das vistas, bate à porta. Por momentos perdi-me no incómodo insólito da sua cegueira, enquanto estendia na minha direcção um envelope com o meu nome. "Queira, por favor, ter a gentileza de abrir", pediu o homem com o seu ar sólido. Abri o sobrescrito, e dele retirei um pequeno cartão com letras elegantemente impressas, com o nome de Ofélia, o seu endereço e uma frase no mínimo mística, "Os milagres acontecem quando menos se espera. Os maiores em segredo". No verso, com uma caligrafia fina e precisa lia-se a seguinte mensagem, "Quem reflecte não salta. Não hesites. Vem sem reservas." Agradeci e confirmei a minha visita. O homem sorriu agradavelmente e virou costas, desaparecendo no corredor e depois atrás da porta do elevador,como uma luz no horizonte.
A casa de Ofélia era um edifício pintado de azul cobalto de antiga linhagem histórica, com apenas três andares. O som afinado da campainha espantou uns pardais atraídos pela poças de água espalhadas pelo pátio interior. Subi ao último andar pela escadaria larga, pintada de branco, esburacada aqui e ali como um queijo, mas digna de um cenário de ópera. A luz mansa do candeeiro de pé esboroava-se no átrio de casa, uma tulipa órfã, repousava numa jarra barroca, um enorme espelho de moldura bronze descansava dominante na parede, parecendo ampliar a própria solidão daquela divisão.
Sentámos-nos nas poltronas ao pé da janela. O sol fazia manchas de luz amarela nos nossos corpos. Sorria-me de faces enrubescidas. Estava muito bonita.
-Já me ouviste falar de situações privilegiadas? - Começou.
-Não creio.- Respondi.
-Já sim - Diz com segurança. - Foi uma época tumultuosa. A guerra e os acampamentos empurram-nos à força para o desabamento humano e fazem-nos perder o domínio e o alfabeto, sem intervalos, sem choros. Na altura, estávamos as duas no hospital, ambas de almas roídas por um veneno que não escolhemos e por ironia tornei-me tua paciente e depois cúmplice na dor de uma morte que não se escolhe, impõem-nos. Acontecimentos que nos ultrapassam e nos esmagam por inteiro.
Descruza as mãos e liberta o joelho. Cala-se. É um silêncio necessário, preparatório. Acende um cigarro. Depois poisa o maço em cima da mesa e fica muito direita. Baforadas de fumo branco envolviam-se no ar em pequenos ciclones.
-Toma, tenho algo que te interessa.- E poisou-me no colo uma chave agarrada por um fio a um papel encorpado com um endereço escrito.
-Como conseguiste? - Perguntei, quase a ser transportada acima de mim própria.
-Ah, isso querida é um segredo dos deuses.- Concluiu, dona de uma situação privilegiada mas disposta a partilhar parte da sua extravagância.
Os nosso riso cresceu junto.
Dali, segui sem desvios para tua casa. O coração e o desejo esvoaçam, uns metros à frente, como se embarcassem num vagão em fuga.

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