molha um dedo com saliva


Acorda e nada é o que foi. Acorda de um sono sem poder e quando os olhos se abrem, a luz que a atinge confia-lhe uma realidade alterada daquele que conheceu no dia anterior. Os prédios não são prédios, são paredes desconhecidas. Os passeios, as ruas, as portas, os muros são abafados pela funda miséria da lama. Uma pasta de terra mole alastra-se e tudo consome em serena inquietação. A paisagem é um extenso conflito. Persegue com os olhos o brilho das árvores, a mancha de uma pedra, o impulso das correntes de água, as toalhas penduradas na corda, os insectos gigantes, poisados nas longas lâminas das folhas. Passam gansos e peixes brancos.Tudo abandonado no precipício do passado. O silencio pesa mais que o peso de todas as almas. As palavras ficam presas na garganta. A transformação invade o corpo. O quarto estremece, estalidos atacam a mobília, o candeeiro treme, o coração também. Um carro buzina. Ouve um alfinete cair. A perturbação confunde-a. É uma vara que lhe bate nas têmporas. A desolação amplia-se-lhe dentro. Um dia voa, como uma ave negra. Depois tudo cai, com estrondo.

ACP |10.014|

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