A miúda do jamelão
O fim do dia, macio e lento, inclinava-se
sobre o eixo do horizonte, feito de palavras fechadas. A praia de Geribá
estendia-se quase deserta, propensa à metáfora, no eco da brisa transitória que
passa sobre a estiagem das casas. Desliguei o motor do carro estacionado na rua
estreita e desci a pé pelo passeio até à calçada que ladeia a areia. O calor
diluía-se na atmosfera, ensinando o sol da tarde a descer. Ao fundo da rua, na
esquina, um terreno abatido conservava uma frondosa árvore de cabeleira
verde. Num ramo alto, a miúda de pernas suspensas a baloiçar
sobre o braço musculado da árvore, finge não me ver. Segura na mão um punhado de bagas roxas, que
saboreia pausadamente, parada na imaginação. As mãos e a boca tingidas de
púrpura, os olhos aprisionados à sombra navegante da árvore, cartografa outros
alvos.
Avancei uns passos, atenta ao cão bem-humorado, às fendas das paredes, a sofrerem críticas, à poeira do chão,respeitada na rua, às janelas abertas,exercendo a preguiça, à musica demasiado baixa,para alcançar um assombro feliz.
Ágil a rapariga desce da árvore, atravessa-se vertical e sólida na minha frente. Crava os olhos
atentos sem aparentes ligações amigáveis. O vestido apagado e o cabelo
desarrumado, dão-lhe um ar ligeiramente diabólico. Descansa uma faca na sua mão. A lâmina não tem qualquer informação: sem provas ou
aspirações. Uma faca simples, igual a tantas outras. E como quem segura no cabo
manda, eu, diante da lâmina, inevitavelmente, perco. Ou talvez não.
Pergunto-lhe curiosa como um ignorante:
- O que estás a comer?
Ficou tão atenta com a entoação dada que
quase afogámos na mudez.
- É jamelão. – responde indivisível.
- Posso provar? - Atiro em jeito de desafio.
A miúda inclina a cabeça para o lado, vigiando-me com o olhar e trepa ao cimo da
copa. Estica o corpo elástico sobre um galho carregado de bagas maduras e
arranca-as como se fosse uma matéria inimiga. Desce sensata e estende-me a
palma da mão convidando-me a provar o fruto, com o seu olhar martelo, oscilando
entre as bagas e os meus olhos.
Com a exacta precaução de um tratado de paz, seguro na
pequena baga. Estudo-lhe as dimensões e formas com método de perto, procurando a lei do aroma. Ela alastra na face um sorriso carmim. A
mão leva à boca sem tecnologia a baga e repito o gesto. Faço um ar confuso pela
ténue acidez do fruto.
Ficámos as duas a saborear a pequena
colheita numa dimensão familiar.
- É portuguesa?- interroga, subindo e descendo o olhar.
-Sim! - confirmo, assumindo a pertença.
Contei-lhe do quotidiano, dos costumes e apetites, da moeda, das canções, das dimensões do mundo, que tudo tem um espaço dentro de nós para ser pequeno ou grande.
Saboreámos um picolé com os pés afundados na areia fina e o resto do corpo equilibrado na luz morna do sol.
Despedimos-nos com uma alegria inquieta. E à medida que a distância abafava o adeus, levantou-se ao nível do coração, a certeza de escrever uma história, sem nuvens ou fumos,acerca da miúda do jambolão, num gesto de sair do tempo, desconstruindo as margens entre nós.

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