Quando a guerra é a regra

Astride tinha por ofício domar leões. De leões já feitos, nada de bichos sustentados a forragem. Felinos-rei, de corpos possantes, bem medidos e sem vícios de forma. Feras de uma grandeza histórica em todo o seu poder: no rugido cavernoso, na juba de linhagem específica, no andar galante, ora predador, com todas as possibilidades que Deus ignora, ora filósofo nas horas vagas. Animais de ânsia monástica de existência. E Astride de fogo inquieto na mão erguia o braço, sustinha a respiração, afinava o ouvido, no rebento da escuridão. Rija como um comandante, reunia a tropa. Pela frente, organizava uma coluna de dois ou três, com apenas uma ordem de formatura. Instruções corridas em latim, ditas de dois em dois passos. E os animais azamboados obedeciam cegos ao discurso derramado ou ao exorcismo do fogo sacudido no ar. Ali onde a guerra não passava de um espectáculo, sem preparação nem experiência, Astride era a semente do diabo. E ainda por cima negra. O que realmente aconteceu nunca se veio a saber, nem causa nem explicação, foi mais um mistério a juntar a tantos outros. O que se conta sobre o assunto é que foi a falta de cautela e de vergonha. De cautela, pela falta de resguardo nos limites. De vergonha, pelo arrojo de peitar com a hierarquia.

A Astride assaltou-lhe o sexto sentido e mandou fazer alto à coluna de leões, suspeitando da mira discreta de uma espingarda por entre o público. E para evitar mal entendidos e as balas que pudessem ferir, estendeu o capote por cima da cabeça, numa pausa destinada a criar expectativa e fez abrir carreira por entre a multidão segurando nas mãos, duas tochas em labaredas, a arderem o fogo do inferno. Os leões seguiram-na sagrados e ameaçadores. As pessoas afastavam-se aos encontrões, de medo e curiosidade. Uma agitação sem justiça, fustigada pelo fascínio das feras guiadas ao alvo: o grito da aorta sob a pele desafiando o olhar de quem tem por instinto matar. E assim se fez a mais suculenta vítima nos dentes afiados da fera, tudo debaixo do pasmo de uns e do terror de outros.


Não é todos os dias que um leão é rei. O que vale é que choveu toda a noite, lavando o sangue derramado e o crime de Astride. Já o medo, esse espreita à porta, no ânimo da guerra.

ACP

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