apartheid genético
Reginalda nasceu albina. Pai e mãe acreditavam que tinha sido alvo de um mau-olhado. Algures numa panela anónima tinham-lhe cozinhado o seu funesto destino. Por isso Reginalda, por protecção à sua existência, esquartejada, perseguida ou vendida na certa, achava-se escondida, incapaz de dar a volta à sua sorte. A mãe estendia o seu desassossego pela casa, cuidando de abafar a claridade num tumulto absoluto com panos brancos e a loucura nas mãos. O pai de olhos exaustos, desnudos até ao osso, como um morto, ardia em trejeitos de bruxaria, capturando serpentes nas escaldantes areias - exílio de tantas horas - para depois as esfolar entre danças, gritarias e verbos obscuros, na saga de uma coreografia de santificação.
Veio um dia cinzento e a terra estremeceu de calor. Reginalda praticamente vazia de tudo, na fragilidade dos sentenciados, ocupava-se de esconder as mãos, volteando-as num giro estéril como quem hesita no abandono. Lentamente o seu corpo enrijecia. Admirava-se Reginalda da sólida imutabilidade, primeiramente da sua pele, depois dos músculos e tendões, e por fim os ossos e os nervos, pesados como uma pedra, um cansaço, uma ressaca do paraíso. Estremecia de dor. A sua acromia de marfim, símbolo da rejeição, abatia-se-lhe sobre o seu futuro como uma penitência assustada.
Vai daí, Reginalda desviada da ruína imputada pela cabeça estúpida dos homens, adensa-se na verdade, acolhendo os opostos, abrindo a goela em notas altas e agudas, abalando o ar em ondas crescentes de intensidade, indignadas e resistentes. O som derramado pela sua voz, sem alpendre nem rede trespassava os limites dos corpos, das coisas e da matéria. Sem corrimão e em contra-mão expandia-se em furor, levando o insuportável aos ouvidos, estilhaçando vidros e espelhos, rachando a madeira em ânsia alucinada, abrindo fendas no asfalto e na terra batida das ruas, estalando, sem queixume, o aço na gare.
Reginalda no seu dom alegre e ácido e de estampido tamanho assenhoreou-se da sua evidência tropical, sem asas ou repúdios, enfeitou o cabelo com ganchos cintilantes e partiu porta fora. Há tanta pedra e gelo.
|acp|


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