Porção indivisa de espaço


O espaço da sala vazia era extenso. Generosa na sua dimensão, fazia o agradado a qualquer futuro inquilino. Ali, podia-se dispor da mobília, conciliando uma zona de refeições e outra de lazer com um desafogo candidato a imperador. Sobejava área para dar e vender a qualquer aspiração funcional. 
Uma sala excessiva na disponibilidade da sua projecção, como um glorioso intervalo aberto, amplo e despovoado. Assim a avaliou, sentindo o peso de todo o seu vazio. Daquele fora e do seu, dentro.
A evidência do evento, dessa conjugação de espaço e de tempo, assumiu-se, sem que fosse tida nem havida, numa angústia compacta que ao passar nos ajeita o colarinho. 

O desconforto envergou uma pose de estátua, despontando dentro de si um medo que ressoava no peito. De repente o chão ficou coberto de penas de coruja. Descalçou-se. Sentiu na planta dos pés uma suavidade de nuvens. Das paredes escorriam fios de água, sulcando a superfície como marcas de unhas sobre a pele. Fez saber que rejeitava a oferta. Tanta virtude denunciava toda a sua solidão.






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