poder sO.negadO


Um novo ano implica um novo começo.  Melancólico adágio, esse, que se converte, na esfera do privado, num processo alheio de necessidade moral. E de imediato, se inventa uma empreitada qualquer, das quais se enfeitam os dias, como a imitação de uma paixão ou o uso de adornos baratos criando a ilusão de uma realidade nascente. Deformada lógica que abandona. O novo ano, é uma dúvida. Uma dúvida que a ultrapassa, a transcende, sujeitando-a à tentação benigna de infidelidade ao seu discernimento. E neste calhau giratório, vinculado a circunstância próprias, a angústia é um esboço do futuro e o pensamento é um clima que faz sentir as ausências.

Julgava-te esquecido, admiravelmente longínquo no carácter discutível do consciente, por certo, da falta de movimento do coração. Um fenómeno protegido, uma obra sem poder, direitos ou fé, a memória de ti. Andas em mim com um valor constante, circulando como um engodo do qual nunca me captura.

No entanto, chegaste hoje. Ultrapassaste o que te era autorizado e, resoluto, ficaste a meu lado. Eu, segurando entre os dedos gelados a taça de champanhe, erguia-a num gesto estilizado de saudação. Avançaste até mim, unindo a audácia dos teus passos e a profundidade do teu olhar, convergindo essa expressão perfeita, num lugar privilegiado, susceptível de inúmeras vontades. Ensaiamos a retórica e as invenções mais divertidas. Aproximámos-nos, inquietos, na superfície ilusória do silêncio, fazendo do momento o onírico. 

A partir daí abateu-se sobre a verdade calma das coisas, uma profundeza irrecusável, onde toda a realidade do mundo foi reabsorvida, numa imagem fantástica, de um duelo mitológico entre a libido e o instinto de morte.  Um delírio reinterpretado na vertigem do prazer. Um prazer extremo, reformulando a corporeidade das formas e da moral, enquanto nos perdíamos um pelo o outro, enquanto nos salvávamos um com o outro.

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