Ponto de partida

O quarto em forma de um quadrado completamente despido e sem luz, ocupava aos olhos, o mundo sem distensão temporal. A sua existência dissolvida na supressão da liberdade, procurava, suspensa no medo do sinistro vazio, o agora do seu som, a sua voz, mas o som da sua voz era apenas um ponto numa duração sonora.

Num dos cantos do quadrilátero, um semicírculo desenhado no chão com fita adesiva preta, delimitava um espaço fantasiadamente seguro. Uma área ficcionada e enigmaticamente defensiva de perigos sabidos e encobertos. Deslocou-se para lá, sob uma ameaça indefinida que tomava conta de todo aquele desconexo vazio, e que crescia do solo às paredes, igualmente despovoadas de indícios, verdades intuídas, evidências ponderadas.  O ar desarcetado nos seus átomos, rompia-se opressivo, em oposição, exercendo ferimentos  passíveis de todas as formas de infelicidade. Rosnava intimidativo uma influência  repressora como mãos sôfregas de posse.

No interior desse ângulo de pseudo-protecção,sem qualquer vinculação tornou-se refém, paralisada, reduzida, ínfima de consideração e evidência, até ao limite da sobrevivência. 

O ponto de partida, a superação, foi constatar que aquele quadrado era desprovido de tecto. Por cima da sua cabeça, havia a evidência declarada e sugestiva das circunstâncias favoráveis à previsão de futuros de largas planícies onde o mar cabe na boca sem margens.

O ponto de partida foi transformar tudo num quadrado redondo e dali escapar, pelo tecto. Talvez um dia, o estado das coisas revele outras formas, sem fronteiras ou equívocos, cumprida na distinta fragilidade de viver.

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