O pugilista de costas largas
Quando o vi foi pelas costas. Nessa perspectiva de quem se está a ver e a desejar-se, os ombros largos e elevados insinuavam-se num leve movimento, quase clandestino ao meu olhar. De costas voltadas, o horizonte possível, um dorso coberto por um enorme roupão ocultando a cabeça e as fragilidades.
Atendendo ao insólito da condição, o corpo andante seguia adiante dos meus passos, longe de lhe prenderem a sombra.
Ninguém dava conta do desfile nocturno ao qual ambos nos propusemos por diferentes razões: tu, para combateres, eu, para entender os porquês.
E assim seguia o pugilista de costas largas, pela rua cercada da multidão que o seguia, enfarpelado num elegante roupão branco que se lhe apoderava do corpo e da identidade. Por um acaso, a manga macia do manto de algodão egípcio, especial matéria prima, raspou sobre pele dolente da minha mão .
De nervos em franja, articulei umas perguntas para lhe descobrir a careca, mais pela curiosidade do seu olhar do que o que poderia dizer. E dos seus prósperos e implacáveis ombros nem um volte-face ou um desvio. Pressenti o ressoar da rebentação do silencio que se arrastou no ar. Talvez estivesse careca de saber que ninguém se salva de um naufrágio com a bagagem às costas.
E sem poder voar dali para fora ou cuspir o fogo que me ia no peito, estuguei o passo no esguio molde das minhas pernas.
ACP

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