A Trajectória de um Almendrado


Trazias um saco transparente de almendrados na mão e uma camélia branca na lapela do longo casaco de fazenda castanho. No rosto, de geometria angulosa, germinava selvagem uma barba de dias, atapetando simetricamente a mandíbula, o contorno da boca e os malares numa espécie de paisagem invernosa. Os olhos de cor indefenida afundavam em duas bolsas escuras da cor do café que hibernava fumegante na cafeteira de vidro. Deles agitava-se um olhar introspectivo sobre a composição da sala. Das bocas dos presentes saía um canto dormente que tacteava pelo ar à procura de um feliz isolamento, num bolso aberto, na presilha de um sapato ou na dobra de uma saia.
As mãos instáveis abriram o nó do saco e os dedos refugiaram-se no seu interior, atrelando um dos biscoitos às falanges. Descreveste um movimento contínuo, dobrando o braço no ângulo do cotovelo, conduzindo a mão até à boca, num embalo consentido. Nesse gesto despojado de empréstimo ou repressão, o biscoito estalou crocante entre os dentes numa sonora penalidade. O múrmurio da sala fracturou-se nesse instante. Um alucinado espanto silencioso fez curvar as pessoas em direçcão ao chão, de rabo empinado, espiando entre si o desejo que ao corpo pertence e a alma confirma.
Eu fiquei suspensa na fadiga do teu olhar e na camélia branca poisada na superfície vazia de uma memória.
ACP



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